Quanto guardar antes de sair da CLT para virar freelancer

A regra dos seis meses de reserva não serve igual para quem vai virar freelancer. Veja como calcular o valor certo para o seu caso, com um exemplo do começo ao fim.
A pergunta chega quase sempre do mesmo jeito: "já tenho alguns clientes de freela, quanto preciso ter guardado para pedir demissão?". A resposta da internet costuma ser "seis meses de despesas". Para quem é CLT, seis meses é uma boa reserva de emergência. Para quem vai trocar salário fixo por renda de freelancer, o cálculo é diferente, por três motivos.
Primeiro, alguns custos que a empresa pagava passam a ser seus. Segundo, os primeiros meses quase nunca rendem o que você imaginou. E terceiro, o dinheiro de um trabalho entregue hoje pode levar 30, 45 ou 60 dias para cair na conta.
Passo 1: o custo de vida de verdade
Abra os extratos dos últimos três meses e some tudo o que saiu, não o que você acha que gasta. Aluguel, contas, mercado, transporte, assinaturas, farmácia, presentes, parcela do celular. Faça a média. Esse é o seu custo de vida.
Depois olhe o que a empresa pagava e você nem percebia. Plano de saúde, vale-refeição, às vezes o notebook e a internet. Ao sair, isso entra na sua conta. Plano de saúde individual pode custar bem mais do que a parte que você pagava no plano empresarial, então faça a cotação antes de decidir. Este guia de plano de saúde para autônomo ajuda nisso.
Some também os custos novos de quem trabalha por conta. Contribuição ao INSS (no MEI vem dentro do DAS mensal), contador se você não for MEI, equipamento e softwares que antes eram da empresa. E lembre que 13º, férias remuneradas e FGTS deixam de existir. Se você quer tirar férias, precisa guardar para elas.
Passo 2: quanto os freelas já rendem por mês
Pegue o que você recebeu de freela nos últimos seis meses e faça a média mensal. Use o dinheiro que caiu na conta, não o valor dos orçamentos aprovados.

Agora seja honesto sobre quanto disso continua quando você tiver o dia inteiro livre. Às vezes cresce rápido, porque você aceita mais trabalho. Às vezes cai, porque um cliente grande era projeto pontual. Para o cálculo, considere só os clientes recorrentes ou com trabalho já contratado para os próximos meses.
A diferença entre o custo de vida total e essa renda recorrente é o buraco que a reserva precisa cobrir enquanto a carteira de clientes cresce.
Passo 3: o atraso entre trabalhar e receber
Esse é o ponto que mais pega desprevenido quem acabou de sair da CLT. Empresas grandes costumam pagar em 30 ou 45 dias depois da nota fiscal, algumas em 60. Se você fecha um projeto em março, entrega em abril e emite a nota no fim de abril, pode ver o dinheiro só em junho.
Por isso, os dois primeiros meses depois da demissão costumam ser os mais apertados, mesmo para quem tem trabalho. Coloque no cálculo pelo menos dois meses de custo de vida inteiro, sem contar com renda nenhuma. E já na largada, combine com clientes novos um sinal ou um pagamento por etapas. Cobrar adiantado reduz muito esse buraco.
Um exemplo com números
Imagine alguém com custo de vida de R$ 4.000 por mês. Ao sair, ganha R$ 700 de custos novos: R$ 550 de plano de saúde individual e uns R$ 150 de DAS, softwares e outros gastos. O custo mensal passa a ser R$ 4.700.

Hoje os freelas recorrentes rendem R$ 2.000 por mês, e a pessoa espera chegar a R$ 4.700 em seis meses, crescendo uns R$ 450 por mês.
Os dois primeiros meses não têm entrada nenhuma, por causa do prazo de pagamento: R$ 9.400. Do terceiro ao oitavo mês, o buraco vai diminuindo: R$ 2.700, R$ 2.250, R$ 1.800, R$ 1.350, R$ 900 e R$ 450, somando R$ 9.450. No total, R$ 18.850.
A esse valor some uma reserva de emergência que não deve ser tocada para cobrir o buraco, porque ela existe para o imprevisto: um cliente que some, uma doença, um notebook que queima. Com mais três meses de custo, R$ 14.100, a meta fica em torno de R$ 33.000. Bem mais do que os "seis meses" de R$ 4.000 que a regra genérica sugeriria.
Os números do exemplo são ilustrativos. Faça a conta com os seus.
Pedir demissão ou fazer acordo muda a conta
Quem pede demissão não saca o FGTS, não recebe a multa e não tem direito ao seguro-desemprego. Recebe saldo de salário, férias e 13º proporcionais. Esse dinheiro ajuda, mas não conte com nada além disso.
Existe também a rescisão por acordo, prevista no artigo 484-A da CLT. Nela, a empresa paga metade do aviso prévio indenizado e multa de 20% sobre o FGTS, e você pode sacar até 80% do saldo do fundo. Não há seguro-desemprego. A empresa não é obrigada a aceitar, mas muitas aceitam quando a saída é amigável. Se o seu FGTS for alto, essa diferença pode cobrir alguns meses do buraco.
Antes de decidir, releia o seu contrato. Algumas empresas têm cláusulas de confidencialidade ou de não concorrência que limitam para quem você pode trabalhar depois.
Uma transição menos arriscada
Se dá para manter o emprego por mais alguns meses, use esse tempo para fazer o buraco encolher antes da saída: conseguir um segundo cliente recorrente, negociar um contrato mensal com quem já atende e organizar a parte burocrática. Abra o MEI ainda empregado, se a sua atividade permitir, e veja como funciona ser freelancer part-time sendo CLT.
Depois que sair, separe a conta da reserva da conta do dia a dia e defina um pró-labore fixo, mesmo que pequeno. Organizar o fluxo de caixa como freelancer é o que impede a reserva de virar dinheiro de mercado sem você perceber.
Ainda em dúvida se vale a pena? Este comparativo entre freelancer e CLT remoto ajuda a colocar o resto na balança.
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